Massacre do Carandiru: relembre o caso
Relatos apontam que tudo começou devido a uma dívida de drogas. No dia 2 de outubro de 1992, o detento conhecido como “Barba”, após perceber que o “Coelho” não iria lhe pagar os 15.000 cruzeiros – ou três maços de cigarros, na moeda da Casa de Detenção, parte do complexo presidiário do Carandiru, arrumou um pedaço de pau e partiu para a briga. Ele estava convicto que a divida lhe seria paga de qualquer jeito. Coelho já estava à espera de estilete na mão. E o que era para ser um acerto de contas se transformou em um conflito generalizado entre detentos rivais. Trocavam socos, pauladas e estiletadas. O que era para ser uma disputa por três maços de cigarro acabou terminando na morte de 111 detentos, a maior carnificina presidiária de que se tem notícia nos últimos 40 anos.

111 presos da Casa de Detenção do Carandiru morreram após a Polícia Militar entrar no Pavilhão 9 para sufocar a rebelião.
Projetada para 3.300 presos, a Detenção “hospedava” 7.119 naquele dia. Apenas dez carcereiros haviam ido trabalhar. Deveriam ser dezoito se alguns não tivessem faltado, tirado férias ou licença. Cercados pelos dois grupos rivais, os carcereiros bateram em retirada. Afinal, não era atribuição deles se meter numa briga dessa proporção. Os detentos acertavam suas desavenças e ao mesmo tempo quebravam tudo que encontravam pela frente. Às 14h30 os carcereiros trancaram o portão principal e acionaram a Polícia Militar. Em menos de meia hora, 341 policiais se enfileiravam do lado de fora sob a chefia do coronel Ubiratan Guimarães.
A briga já durava uma hora e meia. A imprensa já estava mobilizada na frente da Casa de Detenção. Com a movimentação dos policiais, os detentos do Pavilhão 9 trocaram a briga entre eles pela preparação de um combate contra os policiais. As autoridades afirmam que houveram tentativas de negociações, o que foi negado pelo depoimentos de alguns presos. Atearam fogo em colchões empilhados, jogaram óleo de cozinha nas escadas, apagaram a luz com um curto-circuito e estouraram os encanamentos de água. A barricada estava armada.
Às 15h30 o coronel Ubiratan recebeu ordens para invadir o Pavilhão 9. O então governador Luiz Antônio Fleury Filho pediu cautela, afinal a situação poderia complicar as eleições que aconteceriam no outro dia. Foi solicitado, aos berros, que todos deveriam se recolher a suas celas. Foram respondidos a pedras e telhas. Até uma vaso sanitário foi jogado. Os policiais perceberam que seria necessária uma ação enérgica. Uma explosão no térreo deixa o coronel Ubiratan ferido e ele é retirado. Os policiais dão continuidade à operação. Nenhum agente penitenciário, nenhum juiz nem o assessor especial da Secretaria de Segurança lembram-se de ter ouvido tiros até o momento da invasão pela polícia.
Eram 4 horas da tarde quando começou os trinta minutos decisivos. Enquanto percorriam os corredores estreitos e cheios de fumaça, os policiais eram alvejados com sacos de urina e fezes. “Aqui é o Choque e chegou a hora da morte”, anuncia os policiais raivosos e ameaçadores. Uma saraivada de tiros ecoa pelo prédio. O coronel Nakaharada atirou para o alto e logo em seguida saiu metralhando dentro das celas. Não queriam rendição dos detentos, afinal todos estavam desarmados e rendidos, era mesma uma execução em massa.
Pelo que ouviram no andar de baixo, os presos do 3º pavimento prepararam-se para a rendição. Tiraram a roupa para mostrar que não atacariam. De nada adiantou. Os policiais atiraram até mesmo em detentos que estavam rendidos deitados no chão. Não havia resistência na Casa de Detenção, apenas fuzilamentos. No 4º pavimento a ação inescrupulosa foi a mesma. A varredura acabou apenas quando a tropa alcançou a última cela do 5º pavimento. Havia sangue por toda parte e alguns que escaparam do massacre foram escolhidos para recolherem os corpos. No dia seguinte os policiais voltaram para a Casa de Detenção, mas dessa vez, apenas para atiçar seus cães contra os parentes das vítimas que protestavam por justiça. À noite, boa parte dos policiais voltaram para o aconchego do lar. Encararam os filhos, as esposas, os vizinhos. Haviam terminado mais uma longa e fatigante jornada de trabalho. Mataram 111 pessoas e agora podiam dormir e sonhar.
*Relato baseado na publicação da Revista Veja em 14 de outubro de 1992.
Relatos apontam que tudo começou devido a uma dívida de drogas. No dia 2 de outubro de 1992, o detento conhecido como “Barba”, após perceber que o “Coelho” não iria lhe pagar os 15.000 cruzeiros – ou três maços de cigarros, na moeda da Casa de Detenção, parte do complexo presidiário do Carandiru, arrumou um pedaço de pau e partiu para a briga. Ele estava convicto que a divida lhe seria paga de qualquer jeito. Coelho já estava à espera de estilete na mão. E o que era para ser um acerto de contas se transformou em um conflito generalizado entre detentos rivais. Trocavam socos, pauladas e estiletadas. O que era para ser uma disputa por três maços de cigarro acabou terminando na morte de 111 detentos, a maior carnificina presidiária de que se tem notícia nos últimos 40 anos.

111 presos da Casa de Detenção do Carandiru morreram após a Polícia Militar entrar no Pavilhão 9 para sufocar a rebelião.
Projetada para 3.300 presos, a Detenção “hospedava” 7.119 naquele dia. Apenas dez carcereiros haviam ido trabalhar. Deveriam ser dezoito se alguns não tivessem faltado, tirado férias ou licença. Cercados pelos dois grupos rivais, os carcereiros bateram em retirada. Afinal, não era atribuição deles se meter numa briga dessa proporção. Os detentos acertavam suas desavenças e ao mesmo tempo quebravam tudo que encontravam pela frente. Às 14h30 os carcereiros trancaram o portão principal e acionaram a Polícia Militar. Em menos de meia hora, 341 policiais se enfileiravam do lado de fora sob a chefia do coronel Ubiratan Guimarães.
A briga já durava uma hora e meia. A imprensa já estava mobilizada na frente da Casa de Detenção. Com a movimentação dos policiais, os detentos do Pavilhão 9 trocaram a briga entre eles pela preparação de um combate contra os policiais. As autoridades afirmam que houveram tentativas de negociações, o que foi negado pelo depoimentos de alguns presos. Atearam fogo em colchões empilhados, jogaram óleo de cozinha nas escadas, apagaram a luz com um curto-circuito e estouraram os encanamentos de água. A barricada estava armada.
Às 15h30 o coronel Ubiratan recebeu ordens para invadir o Pavilhão 9. O então governador Luiz Antônio Fleury Filho pediu cautela, afinal a situação poderia complicar as eleições que aconteceriam no outro dia. Foi solicitado, aos berros, que todos deveriam se recolher a suas celas. Foram respondidos a pedras e telhas. Até uma vaso sanitário foi jogado. Os policiais perceberam que seria necessária uma ação enérgica. Uma explosão no térreo deixa o coronel Ubiratan ferido e ele é retirado. Os policiais dão continuidade à operação. Nenhum agente penitenciário, nenhum juiz nem o assessor especial da Secretaria de Segurança lembram-se de ter ouvido tiros até o momento da invasão pela polícia.
Eram 4 horas da tarde quando começou os trinta minutos decisivos. Enquanto percorriam os corredores estreitos e cheios de fumaça, os policiais eram alvejados com sacos de urina e fezes. “Aqui é o Choque e chegou a hora da morte”, anuncia os policiais raivosos e ameaçadores. Uma saraivada de tiros ecoa pelo prédio. O coronel Nakaharada atirou para o alto e logo em seguida saiu metralhando dentro das celas. Não queriam rendição dos detentos, afinal todos estavam desarmados e rendidos, era mesma uma execução em massa.
Pelo que ouviram no andar de baixo, os presos do 3º pavimento prepararam-se para a rendição. Tiraram a roupa para mostrar que não atacariam. De nada adiantou. Os policiais atiraram até mesmo em detentos que estavam rendidos deitados no chão. Não havia resistência na Casa de Detenção, apenas fuzilamentos. No 4º pavimento a ação inescrupulosa foi a mesma. A varredura acabou apenas quando a tropa alcançou a última cela do 5º pavimento. Havia sangue por toda parte e alguns que escaparam do massacre foram escolhidos para recolherem os corpos. No dia seguinte os policiais voltaram para a Casa de Detenção, mas dessa vez, apenas para atiçar seus cães contra os parentes das vítimas que protestavam por justiça. À noite, boa parte dos policiais voltaram para o aconchego do lar. Encararam os filhos, as esposas, os vizinhos. Haviam terminado mais uma longa e fatigante jornada de trabalho. Mataram 111 pessoas e agora podiam dormir e sonhar.
*Relato baseado na publicação da Revista Veja em 14 de outubro de 1992.


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